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A CUT dividiu e enfraqueceu a luta dos trabalhadores

Saímos em três ônibus, da Praça da Bandeira, em Belém, seriam três dias e duas noites de viagem, 2.900 km, rumo ao Vera Cruz, palco da produção das chanchadas da Atlantida, com Mazzaropi e Oscarito, em São Bernardo do Campo, São Paulo. Era agosto de 1983 e íamos participar do congresso de fundação da Central Única dos Trabalhadores.

A comitiva era formada de trabalhadores de várias categorias urbanas e rurais. Todas as despesas pagas com muita coleta, apuração de festas, rifas, vendas de broches, doações dos sindicatos e os parcos recursos pessoais de cada um dos assalariados.

Os sindicatos de todas as vertentes políticas, petistas, pedetistas, pecebistas, pecedebistas, socialistas, pessedebistas, sem partidos haviam chegado ao consenso que era fundamental unificar a luta sindical e partiram para o I CONCLAT na Praia Grande, seguido de ENCLATS, culminando com o Congresso de fundação de uma centra única de trabalhadores.

Os princípios que norteavam aquele movimento sindical pujante se resumiam em unir os trabalhadores, independente de filiação partidária, para fortalecer a luta em prol de redemocratização do Brasil e por “liberdade e autonomia sindical”.

Na viagem fomos cantando, debatendo as teses, afinando as palavras de ordem. Era muita energia e alegria. O ato de fundação da CUT significava o coroamento das lutas sindicais por direitos banidos durante o período militar, quando os sindicatos foram intervidos e tutelados. Os militares, porém, preservaram a CLT e a Justiça do Trabalho.

Os ônibus paravam para o café, almoço e jantar, nos pontos de apoio da Transbrasilana, empresa fundada pela família do ex-presidente Juscelino Kubitschek, que monopolizava as viagens do norte em direção ao Distrito Federal.

Nestas horas, o grupo se dividia, os que tinham um pouco de dinheiro faziam suas refeições no restaurante da empresa de ônibus, alguns haviam levado comida e faziam as refeições em baixo de árvores, outros atravessavam para as barracas de beira de estrada e comiam as comidas regionais, como a panelada.

A luta por liberdade sindical nos permitiria organizar e funcionar as entidades sindicais de forma livre, segundo as determinações consensuais dos trabalhadores, sem obediência ao modelo preconizado pelo estado. Já havia alguns consensos como, por exemplo, a base territorial e o ramo de atividade. Não queríamos pulverizar as entidades para não enfraquecer a luta dos trabalhadores.

A viagem seguia pelo enorme e delgado estado de Goiás. Na época ainda não existia o estado do Tocantins. Quando saímos do norte, começou um sufoco em todos três ônibus. O tempero e a comida forte fez efeito. Os banheiros dos ônibus não suportaram a demanda. Fomos obrigado a entrar na cidade de Anápolis para adquirir enterovioform, receitado pelos médicos, da oposição sindical, integrantes da nossa delegação.

A autonomia sindical era muito importante. Nos libertar do Estado, interventor por meio do Ministério do Trabalho e romper com a estrutura sindical varguista, que engessava os sindicatos, hierarquizados por federações e confederações pelegas, sustentadas pelo dinheiro ilegítimo do imposto sindical, significava construir sindicatos forte e ligados a base. Mas a proposta de autonomia ia muito mais além. Queríamos ser autônomos dos partidos políticos. O movimento sindical não podia ser correia de transmissão dos partidos comunistas, socialistas ou social-democratas. Isto teria sido um erro das revoluções mundo a fora.

Os ônibus seguiam ultrapassando o sul de Goiás e as paisagens mudavam. Curado dos desarranjos e aliviados, os passageiros podiam apreciar melhor a paisagem passando em velocidade pela janela dos carros, era a primeira vez que trabalhadores humildes, acostumados com o calor dos trópicos e a floresta Amazônica, experimentava o frio a vegetação do serrado.

Tudo era novidade naquela viagem. Durante o dia, os ônibus viravam palco para cantorias, show de humor, contação de histórias e debate sobre temas variados. Agricultores falavam com operários, profissionais liberais aprendiam com pessoas de ocupações manuais. Aquilo era uma escola de formação política sobre rodas.

Chegar em São Paulo, olhar o Rio Tietê, ver os prédios, ruas com carros em alta velocidade e frio de doer os dentes, era um sonho. São Bernardo do Campo então. Ali estava o templo dos nossos deuses do sindicalismo. Luis Inácio, o Baiano, junto com Jair Meneghelli, recebi as delegações de todos os estados do país. No galpão da Vera Cruz, as delegações iam buscando seus cantos para armar colchonetes, juntar as malas, tomar banho e pegar o rango.

Os gaúchos, como Olívio Dutra, líder dos bancários, e Paulo Renato Paim, líder dos metalúrgicos de Caxias, desfilavam por entre operários de todas as partes do país, com suas cuias de chimarrão e bombachas vistosas.

O líder nordestino José Novais, da Bahia, era o símbolo dos trabalhadores rurais. Naquela época os STR eram os herdeiros da Ligas Camponesas e da luta pela reforma agrária, não existia o MST, Movimento do Trabalhadores Rurais Sem Terra.

O Congresso de Fundação da CUT abriu em clima de festa e de muita firmeza em torno da redemocratização do país. A maioria dos delegados era formada por sindicalistas oriundos da Anampos, articulação nacional em oposição as estruturas sindicais. Os camaradas do PCB e do PCdoB, por serem minoritários, resolveram boicotar o encontro e não credenciaram seus delegados.

Teses aprovadas, moções e requerimentos votados, chegou a hora de escolher a forma se organização da futura central. Neste momento o congresso se dividiu. Jair defendia uma estrutura presidencial. Paim propunha uma estrutura de coordenação. Por trás estava sair com um CUT pronta e acabada sem os comunistas ou esperar para aparar as arestas e incorpora-los no processo de formação de uma verdadeira central única.

Paim, defensor da unificação, lutou muito, chegou a rasgar o crachá e abandonar o evento, mas foi convencido por Lula a voltar, para ver sua proposta derrotada.

A CUT nasceu forte. Jair Meneghelli foi eleito presidente. Mas o tempo iria mostrar que a maioria estava errada. Aos poucos a CUT virou a central sindical do PT. Outras centrais foram criadas. Os sindicatos se dividiram na base para abocanhar parcelas do imposto sindical mantido. Passaram a ser o apêndice de partidos aliados ao governo petista e perderam a referência de suas categorias.

Os erros foram tantos e o resultado foi o enfraquecimento da luta dos trabalhadores ao ponto de não resistirem a um governo ilegítimo e a um Congresso corrupto, que reformou as leis trabalhistas, retirando direitos históricos conquistados com muita luta e sangue.

O Primeiro Maio é de luto e não mais de luta. Lula está preso. As centrais sindicais são muitas, mas pouco representativas. Seus atos não reunem o povo, sendo urgente que se retome o debate da tese derrotada e se faça um movimento de unificação em prol da classe trabalhadora, voltando ao inicio para criarmos uma CUT com todas as correntes sindicais e sem atrelamento a partidos políticos.

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