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Santos Dumont e a morte das abelhas

Viver a vida com limites e respeito a natureza

“Alguém, sabe me dizer onde encontro a feira de produtos orgânicos, destes que vem direito da roça e dizem que faz muito bem para saúde?”, perguntou o vizinho do 501, dirigindo-se as pessoas que estavam ali pela portaria do prédio residencial onde mora.

O porteiro fez que não ouviu ou se ouviu não sabia o que era produto orgânico, para ele, era coisa dessa gente metida a besta, que gosta de inventar moda. 

Já o tenente reformado, que saia para passear com seu cachorrinho de estimação, homem, que por ter muito tempo livre, sabia de quase tudo que rola na cidade, foi logo dizendo: “Vizinho, hoje a feira está lá na Praça Santos Dumont”

“Praça Santos Dumont, onde ficaria?”, pensou o morador, que estava ansioso pelos produtos limpos e vindos direto da natureza, sem os tais agrotóxicos, um mal medonho para saúde. Ele que morava a tanto tempo em Belém, agora estava em dúvida sobre a localização de uma praça da cidade. 

A rede Globo faz propaganda da agricultura que usa agrotóxico. A propaganda diz que Agro é Tech, que tech que nada! A propaganda quer é associar o mal ao bem, ao tecnológico, para dourar a pílula. Mas não adianta, não doura não.

A ciência já revelou que esses produtos lindos, certinho, sem manchas, bonitos de se ver, que estão nas prateleiras dos supermercados, são assim artificialmente e não porque a natureza o quis.

Estudos comprovam que a exposição da população a certas substâncias usadas na indústria química causam distúrbios neurocomportamentais. Embora os traços de glifosato em cada alimento possam não ser grandes, o seu efeito cumulativo é o verdadeiro motivo de preocupação.

A vida moderna está muito artificial. Manipulada pelo homem que manda no dinheiro e sempre quer obter lucro com tudo que vê pela frente, lucro só não, também quer o poder, pois os dois andam juntos, de braços dados e se protegem.

Essa industria apressam a vida do boi, do frango, da cenoura, da batata, fazem-nas de escravas do seu sistema de produção em larga escala. É um sistema em crise. Num ponta produz-se muito, perde-se muito, lucra-se muito. Na outra ponta, a fome e a busca por alimento é uma triste realidade que ceifa milhões de vidas todos os anos.

Nada mais é duradouro nessa vida de modernidade líquida, disse Bauman.

Uma rua está assim, no outro dia já está mudada. As fachadas das lojas do comércio, então! Uma hora estão de um jeito, ai vem um chinês, que a gente nem sabe como eles chegam por aqui, vindo de tão longe, com seus plásticos e microchipe, aluga, coloca uma fachada e esconde a beleza do prédio original da belle epóque.

Até as farmácias, que antes eram escritas como ph e faziam o remédios na hora, de acordo com a doença e com a cara do freguês, hoje são construídas, uma em cada esquina, em menos de 24 horas. Você passa hoje é uma padaria, vem amanhã e já tem uma dessas lojas. Até ali no Baenão já construíram uma. Qualquer dia vão colocar uma dessas farmácias ao lado da Igreja da Sé ou da Basílica, ai vai ter revolta, pois era só o que faltava!

“Vizinho, a Praça Santos Dumont é a mesma Praça Brasil, que os antigos até apelidavam de Praça do Índio, por causa daquela estatua em bronze, importada da Alemanha pelo dono do Armazém Guarani, um que ficava ali na 15 de Novembro”, disse-lhe o Tenente do cachorrinho.

As galinhas de granja, brancas, sebentas, gordurosas, aquilo é só hormônio e faz muito mal para as pessoas. Os bois daqui dizem que é boi verde, como verde, se para crescer precisou de pasto, que ocupou o lugar da floresta, pasto que foi plantado e mantido com muito produto químico. 

O vizinho do 501, agradeceu, se despediu e foi a suas compras de produtos naturais, sem os venenos da modernidade. 

Na Praça, a feira estava lá, mas foi direto ao monumento que fica no centro da Praça, certificar-se da mudança, quando viu a placa nova, de 1996, anunciando a reconstrução da Praça Santos Dumont, pelo prefeito Hélio Gueiros, já com a nova nomenclatura.

Mudaram mesmo o nome e nem avisaram, será que um prefeito tem tanto poder assim? Pensou consigo mesmo, enquanto caminhava até a feira. 

As pessoas vão se acostumando as mudanças repentinas, como se a vida fosse digital, igual a timeline do foi facebook, ali as noticias passam rápido pelas nossas vistas e nem dá tempo de fixa-las na mente, muito menos, os fatos maturam o suficiente para transforma-se em conhecimento e daí gerar a sabedoria. Assim como vem, se vão e são substituídos por muitas outras informações. Uma morte anunciada no face, logo é substituída por outra tragédia, mais outra e outra, num processo de banalização completa.

Nas barracas da feira de orgânicos, os vendedores são os próprios produtores. Uma senhora pergunta porque o mel de abelha está mais claro. A moça explica que a cor do mel depende da florada. Ovos caipira são bem menores, mas a gema é vermelha que dá gosto. O mamão e a laranja tem marcas do seu crescimento natural. Aquilo são produtos elaborados e maturados pela natureza, no tempo apropriado.

Uma galinha, pelo processo natural leva no mínimo 90 dias para ser abatida, enquanto que a da granja, cheia de antibióticos, estará pronta em apenas 40 dias. Comparando ao cozimento de alimento, se o fogo for muito alto, cozinhara bem mais rápido, preparando o alimento em menor tempo, mas o sabor não será o melhor, os temperos não se misturarão adequadamente, não ocorrera a química perfeita e a coacção.

O vizinho se abasteceu dos produtos mais saudáveis que tinha por lá, na volta, parou novamente no monumento, agora pelo lado da Senador Lemos e viu que a placa original, de 1937, quando governava o Pará o interventor federal Magalhães Barata, ainda continuava no mesmo lugar. Em cima do monumento de 4 metros de altura, o índio do Armazém Guarani, objeto de prosa do poeta Rodrigo Pinajé, também estava lá. O que mudou, afinal? 

Ele não era contra a modernidade e as boas invenções humanas, nem as descobertas dos produtos químicos e das facilidades tecnológicas, nem era contra a homenagem a Santos Dumont, afinal o seu invento é uma maravilha da inteligência humana. Questionava a mudança sem o bom propósito ou o uso dessas novidades para permitir o exagero, o lucro e o poder pelo poder. 

Lembrava dos caças japoneses se atirando com o piloto como se fora uma arma letal ou daquele avião com a bomba, jogada sobre Hiroshima. Lembrava agora do avião agrícola jogando muitos litros de veneno sobre o pomar, matando as pragas, mas também milhões de abelhas, coitadinhas, fecundadoras das plantas, as polinizadoras da natureza e que para todo esse enorme benefício a humanidade cobram tão pouco.

O avião não foi feito para matar as abelhas e Santos Dumont merece toda nossa homenagem.

zecarlos

Advogado, pós-graduado em Direito Ambiental, especialista em povo, principalmente o povo paraense.

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