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O tempo pede coração civil

– Coloca ai um Milton Nascimento, pedia um dos frequentadores assíduos do Boteco dos Amigos. 

Mas os tempos estão bicudos e a intolerância não escolha hora para se manifestar. Até nos lugares de recreios o radicalismo ingressou sem pedir licença. 

Quando o caixa, que controlava o som, ia perguntar a preferência, e antes que o freguês disse que desejava escutar “Coração Civil”, de uma outra mesa, lá no fundo, ouviu-se um brado.

– chega de badalar esses artistas gay e maconheiros, que vivem da Lei Rounet, respeitem a maioria, disse o homem, apoiado por todos da sua mesa.

Fez-se o impasse. O conflito era iminente. O clima ficou tenso.

O funcionário do Boteco acostumado a harmonia e o respeito as diferenças por ali, era o que fazia o charme do lugar, sem saber o que fazer, fez o som emudecer, como se protestasse para dizer, nem uma coisa nem outra, vamos nos entender.

O freguês, que havia pedido a música do Bituca, acendeu um cigarro, pegou seu copo e saiu para o ar livre, cantarolando, sem se intimidar:

“Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?

Viva a preguiça, viva a malícia que só a gente é que sabe ter

Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida

Eu viver bem melhor

Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar”

zecarlos

Advogado, pós-graduado em Direito Ambiental, especialista em povo, principalmente o povo paraense.

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