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Por que Belém alaga com qualquer chuva?

Dizem que as chuvas de março são as maiores, mas no Pará chove muito sempre. Isso acontece porque estamos dentro de uma grande bacia fechada, composta de floresta e água, muita água.

Trata-se da maior bacia hidrográfica fechada do planeta Terra, a bacia Amazônica.

Todas as soluções humanas construídas em outros lugares, se forem copiadas pra cá, devem ser com muito cuidado, antes de sua implantação por aqui. Se não for assim, não dará certo.

Temos um diferencial chamado Amazônia. Aqui se localiza o maior rio em volume d’água da Terra meus amigos. Você já parou para pensar sobre isso?

Belém, por exemplo, é quase uma ilha. Um pedaço de terra cercado de água por todos os lados e por dentro também. Os canais que a natureza abriu para dentro do nosso continente, no passado, nos trazia grandes alegrias e muita fertilidade.

Por falar em muita água, lembre-se que por aqui chega o poderoso rio Guamá (Guamá vem de um vocábulo indígena e significa rio que chove), trazendo água, muita água, e muita chuva, como diz o seu nome. E que recolhe ao longo de 87.389,54 km², recebendo igarapés e rios caudalosos, nutrientes em forma de sedimentos. Para ele se dirigem o rio Capim, o rio Inhangapi, o rio Moju, o rio Acará, até chegar na cidade e se unir ao rio Pará.

A força do rio Pará, é impressionante, nos seus 300 km de percurso, iniciado na Baía das Bocas (delta de Boiaçu/Breves), vindo receber gentilmente as águas do Tocantins e do rio Meruú-Açú. Ele na verdade é um braço do Amazonas, que de tão volumoso se divide para chegar ao mar. O rio Pará, tem esse nome, que os indígenas o denomina assim por compará-lo ao próprio Oceano, sendo denominado de um rio que parece com o mar.

É muita água veloz e espremida, passando por canais com margens não tão largas e até estreitas para os padrões amazônicos, mas que mesmo assim não consegue vencer a força contrária que vem do mar.  No momento que o mar chega, quando as duas forças se encontram, para evitar o confronto desnecessário, uma vez que não é saudável brigar com quem o ira receber em festa momentos depois, o rio se refugia a espera da suavidade do reencontro.

A natureza, para esse refúgio, sabiamente criou os canais naturais, para os quais as águas escorrem e descansam por algumas horas, depois de ter percorrido longas extensões, esperando que o mar se acalme, para voltar suavemente ao leito do rio a fim de alcançar a foz e seguir levando os nutrientes recolhidos, como se fora boas noticias e muitos boatos também, por muitos quilômetros, mar a dentro, alimentando peixes e pescadores com que sempre extraem causos e contos de encantamentos.

No momento que os rios entram nos canais da cidade eles levam coisas boas para distribuir com as árvores, os pássaros e os peixes que alimentavam as pessoas na outra Belém do passado. Era uma bela troca.

Os canais naturais que estão por todas as partes de Belém, talvez hoje você nem os identifique por esse nome, veja neles um adversários, uma vala, um alagamento, mas são igarapés de outrora.

Vamos ver alguns aqui rapidamente?

O canal do igarapé do Piri, esse você já viu falar muito dele, não lembra? Foi o igarapé onde as três embarcações trazendo os fundadores da Cidade de Belém, aportaram, aportaram não, que na época não tinha porto, fundearam, ancoraram, em fim, pararam para que Francisco Roso Caldeira Castelo Branco e seus acompanhantes, incluindo os marinheiros franceses, descessem para declarar a possessão de Portugal por estas bandas.

O canal e igarapé das Almas, é aquele que nascia perto do Largo da Pólvora e escorria pela São Jeronimo até alcançar a Doca de Souza Franco. Ai você lembrou, não é?

O canal da 14 de Março, é esse mesmo, aquele que nasce atras da Basilica de Nossa Senhora de Nazaré, onde o Plácido achou a imagem milagrosa que todos os anos desce do Esplendor e fica ali, quinze dias para admiração dos paraenses. Este canal se alonga pelas ruas da Cremação e segue na direção da Estrada Nova, formando a bacia com o mesmo nome.

O canal do Tucunduba, eita que foi o igarapé da minha infância, no qual tomávamos delicioso banhos, perto da estância e do porto que tinha ali no final da Rua Barão de Igarapé Miri. O igarapé é grande e vem lá da baixada do Marco, do canal da Leal Martins, do canal da Cipriano e da Gentil, tudo acaba no Tucunduba.

O canal do igarapé do Galo, heim! Este vai lá para o Una, Utinga, se encontra com o canal do Jacaré, um mostro de grande. Lembra do Projeto de Macrodrenagem da Bacia do Una, pois é parte desse imenso curso d’água interno.

O canal da 3 de Maio, o da Antonio Baena, verdadeiros rios, amigo, verdadeiros rios!

Tem o canal da Visconde de Inhauma também, alia na Visconde, nas margens desse canal, nos finais de semana, tudo vira festa e animação. Na Pedreira ainda tem o canal da Pirajá, não posso esquecer dele, pois era lá os ensaios do Bloco Estrela Radiante.

O canal do São Joaquim e do Água Cristal, se comunicam que é uma beleza e atravessam muitos bairros de gente humilde e honesta, mas também rega o grande Parque Ambiental de Belém, depois de passar pela área da Marinha e receber as águas do Igarapé Val-de-cans, que já nos serviu de marco limítrofe com o município de Ananideua.

Ia encerram as citações quando lembrei do Canal do rio Paracuri, aquele que alimenta de barro a arte dos ceramistas marajoara, da Vila Sorriso em Icoaraci.

Pronto, chega de coisas boas, vamos agora para parte triste dessa historia, que começa com uma pergunta incomoda: o que nós fizemos dos nossos canais naturais da cidade de Belém?

No lugar de usá-los como uma malha de comunicação sadia por toda cidade, levando-nos aos bairros, construindo passeios as suas margens, respeitando suas bacias e leitos, retirando deles os nutrientes trazidos generosamente por muitos quilômetros, resolvemos tratá-los como adversários, saímos esbofeteando sua face, dando-lhes pontapé nos traseiros,  e os declaramos inimigos da nossa forma “moderna” de vida, da expansão sem planejamento das nossas moradias e do asfalto.

Depois, não satisfeitos, aterramos tudo com os aterros recebidos nas eleições municipais, em troca cedemos os votos para eleger os piores políticos urbanos do país. Hoje, os canais nos servem como depósito de lixo e esgoto a céu aberto ou como fonte de reclamação com as quais alimentamos a oposição ao prefeito de plantão, oposição que com discurso fácil, populista e sem planejamento, agregado a isso outros mimos, nos levarão o voto, o poder e o futuro de uma bela cidade portuguesa as margens de invejáveis cursos d’água.

Ah, mas a natureza não recebe as nossas injustiças pacificamente. Não, isso não. A cada chuva, a cada maré cheia, que coincide com os pés d’águas que constantemente caem por aqui, as águas dos rios, não podendo e nem querendo se atritar com o seu amigo mar, invadem as ruas e alagam as casas construídas em lugar inadequado. É verdade que se vê obrigada a recolher nossas sujeiras do cotidiano, sim. Mas também se vigam deixando para trás as doenças que tentamos lhes passar.

Declaramos guerra a natureza, nossa irmã, nossa amiga, nossa benfeitora, vamos sofrer as consequências, mas é preciso saber que a natureza tem um grande coração capaz de perdoar, para isso, porém, espera que façamos gestos de respeito e de desejo de viver em harmonia com ela.

Devemos dar os primeiros passos e numa boa convivência reabrir todos os canais, fazendo-os voltar ao seu leito natural, como tinha sido idealizado pela natureza. Tratar o esgoto e os resíduos antes de descartá-los por ai sem responsabilidade. Diminuir o consumo de plásticos, eliminando os plásticos de uso único.  Arborizar as ruas e margens dos canais para diminuir o efeito impermeabilizante do asfalto.

Nós, através dos nossos cientista, sabemos o que deve ser feito, falta-nos coragem e atitudes.

zecarlos

Advogado, pós-graduado em Direito Ambiental, especialista em povo, principalmente o povo paraense.

2 comentários em “Por que Belém alaga com qualquer chuva?

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