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Os verdadeiros donos da Vale

Estamos deixando de ouvir os graves alertas ambientais e sociais

Quando a barragem de Brumadinho rompeu, as sirenes não tocaram, foram engolfadas pela lama, mas os alertas ensurdecedores já haviam soado em Mariana. A empresa e os governos federal e estadual não quiseram ou não puderam ouvir sobre o perigo destas barragens.

Por que então estes alertas foram ignorados?

Não é de hoje que estamos deixando de ouvir todos alertas, até os mais graves, que implicam na nossa própria segurança e existência.

São as barragens, as doenças evitáveis, os desmatamentos, o uso excessivo de agrotóxicos, o derretimento do gelo da calota polar, a agonia dos corpos hídricos contaminados, as espécies animais e vegetais simplesmente extintas, os milhões de refugiados mortos ao tentar sair de seus países em busca de sobrevivência, a ausência criminosa de  saneamento básico que transmite doenças e mata pessoas em todos os cantos do Planeta, os milhões que morrem de fome, etc.

O que está nos cegando e nos deixando moucos?

Antes de falar sobre os motivos da nossa insensibilidade aos alertas de perigo tão iminente, vou me permitir fazer mais um alerta grave ao povo e as autoridades paraenses.

Trata-se dos perigos a que estão submetidos os mananciais de abastecimento de água de toda a Região Metropolitana de Belém, diante do trafego intenso de veículos, incluindo aqueles com carga perigosa ou insalubres como os caminhões que transportam lixo, cuja o conteúdo pode vazar diretamente para os lagos e nascentes.

O relatório apresentado a Comissão de Meio Ambiente da Ordem dos Advogados, em 2014, sobre o processo de licenciamento ambiental do prolongamento a Avenida João Paulo II, já alertava para os futuros problemas que o Parque do Utinga e os mananciais de abastecimento de água por ele protegido, ocorreriam caso não se adotasse os cuidados necessários. Mas o alerta entrou para os rol de tantos outros e foi ignorado e, sobre a cegueira da sociedade, as autoridades fizeram ouvidos moucos, o Licenciamento Ambiental foi expedido com algumas condicionantes, que não estão sendo fiscalizadas.

Os olhos e ouvidos das autoridades e das pessoas estão sendo impedidos de funcionar pelo sistema economico e político, baseado no poder e no lucro, com métodos que não respeitam a vida e nos desconectaram da natureza, da qual, parece que deixamos de ser parte.

Os empresários  e os governantes olham para o sistema natural e para as pessoas e não enxergam nelas a complexa teia de relacionamento que significa a própria vida. Deixaram de perceber o verdadeiro sentido da vida e suas implicações.

As pessoas, capturadas pelo sistema, não tem força para reagir ao perigo e assumem as causas dos seus algozes, trabalhando, consumindo e produzindo em função de um pouco de satisfação pessoal e dos parcos salários.

A roda da máquina que eles inventaram, gira contra todas as leis naturais, subvertendo a teia da vida,  escravizando o meio ambiente e pessoas e forçando-os a produzir riquezas para sua apropriação.

Vamos pensar apenas na Vale e no seu produto.

A Vale é uma das maiores mineradoras da Terra. Seu negócio é encontrar e explorar todo o tipo de mineral que esteja em alta no mercado, principalmente o ferro.

A quem pertence a Vale?

Os verdadeiros donos da Vale
Os verdadeiros donos da Vale

Mais da metade do capital votante da Vale pertence, direta ou indiretamente, ao Estado. Outra parte é o capital que circula no mercado especulativo, rodando pelas bolsas, em apostas de investidores anônimos. A maior parte do lucro de toda atividade desta monumental empresa, porém é apropriada pelo mercado financeiro, verdadeiro monopolista e gerente desse sistema.

A Litel, uma das grandes acionista da Empresa, é formada pela Previ (Caixa de Previdência dos Empregados do Banco do Brasil), Petros (Fundação Petrobrás de Seguridade Social), Funcef (Fundação dos Economiários Federais) e Fundação Cesp, dos empregados da Eletropaulo, Cesp e Companhia Paulista de Força e Luz.

Os administradores da Companhia são profissionais pagos para dar lucro aos investidores e nem sabem quem são eles pessoalmente, pois apenas tratam com seus representantes, que são pessoas contratadas, cujo salário depende dos resultados positivos da Companhia.

Um funcionário da Caixa Econômica, do Banco do  Brasil ou da Petrobras, prestes a se aposentar, terá seus ganhos advindos do lucro dessa companhia e nada pode fazer para exigir que esse mesmo lucro venha de práticas ambientais ou sociais éticas.

Um conjunto de engrenagens sem rostos, movem esse sistema, que só tem um objetivo: rentabilidade para as ações e lucro para os fundos de investidores.

Assim como o pensionista da PREVI, lucra com o lucro da Vale extraído em forma de ferro, deixando as barragens de lama para trás, o consumidor que compra um produto feito de metal, também está contribuindo, involuntariamente, para os desastres de Brumadinho, Mariana ou, num futuro próximo, contribuirá para outras, pois existem só na região onde se localiza Brumadinho mais dez outras barragens como os mesmos riscos.

Quando se fala em capitalista, burguês ou elite poderosas, na verdade não se fala mais de pessoas, mas de um sistema que gira ao contrário do movimento do universo e por isso produz o caos. É um sistema fadado a nos destruir. Na periferia desse sistema vai ficando o desastre ambiental e a tragédia humana.

Todos as sirenes estão tocando ao mesmo tempo. Algumas foram engolfadas pela lama, mas as outras tocam e nós estamos insensíveis a ela.

Os cientistas do acordo do clima de Paris, as ONGS, os Verdes do Global Green, o Papa Francisco, mostram os relatórios, gritam, fazem barulho, apelam fortemente, mas o sistema nos cegou e nos ensurdeceu.

A classe política e o modelo de organização dos estados nacionais faliu, são incapazes, não tem força para mudar nada. Impotentes de atuar contra o capital especulativo, tratam apenas dos seus próprios interesses, sucumbindo a força desse sistema perverso.

É hora de abrir os ouvidos e os olhos e reagir criando mecanismos multilaterais, democráticos, transparentes, capaz de controlar o capital financeiro mundial, que a todos escravizou, subjugando os estados nacionais, incapazes de defender sua população.

É hora de trabalhar por um novo pacto baseado na visão sistêmica, abolindo o pensamento cartesiano e o poder patriarcal que desequilibrou tudo, incluindo o masculino e o feminino. Só a ecologia profunda pode nos salvar.

 

zecarlos

Advogado, pós-graduado em Direito Ambiental, especialista em povo, principalmente o povo paraense.

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