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Felizes como pinto no lixo

Outro dia, um jovem da minha relação, muito antenado, disse-me que o ditado popular “mais feliz que pinto no lixo” não fazia qualquer sentido. Achava a frase estranha.

Impactado com a revelação, fiquei mudo e achando que o jovem estava com preguiça de pensar. O ditado era óbvio. Não tinha o que explicar.

Depois de um tempo, quando o meu primeiro impacto havia passado, percebi que o jovem estava certo. Realmente, não faz mais sentido hoje em dia um fato corriqueiro da minha infância, que era ver uma ninhada de pinto, como sua mãe, ciscando no monturo de detritos.

Muita coisa simples do dia a dia parecem não fazer mais sentido.

Como uma história puxa a outra, lembrei-me que em Bragança, tem uma procissão fluvial em homenagem a São Benedito. A procissão com muitas embarcações, sai do cais da cidade em direção a comunidade de “Vila Que Era”, local de referência da fundação original da cidade. Ali recebe a imagem e volta para cidade, onde uma multidão espera para saudar o “Santo Preto”, que é como os populares chamam o “Frei Capuchino”.

Acontece que a procissão só pode ocorrer no horário que coincida com a maré cheia. E como saber o horário em que ocorrerá a maré no ano seguinte a fim de mobilizar a população cristã?

Nesta comunidade da ‘Vila Que Era”, tem um prático, um velho habitante, muito habilidoso com as coisas da natureza, que prevê a maré de um ano para outro, informado a Igreja em que horário, no ano seguinte, os fiéis devem está a posto no cais da cidade.

Estes velhos sábios, que eram sempre consultados em suas aldeias e vilas, estão errando suas previsões por causa das mudanças climáticas. Foi o que comprovou recente pesquisa:

“Os xamãs passaram a se queixar que suas previsões estavam perdendo a exatidão e, a partir dessas indagações, descobrimos que alguns fenômenos provocados pelas mudanças climáticas afetavam seus cálculos”, explicou à Agência Efe o astrônomo Germano Afonso, coordenador do estudo.

Voltando ao ditado, percebi que aquilo que parece simples para mim que fui criado em casa com quintal, para aquele jovem realmente não fazia qualquer sentido. Os jovens de hoje, são criados em cidades, morando em apartamentos, cercados de concretos. Muitos deles conhecem galinha por nuggets do McDonald’s ou por peitos brancos que vem no saco do supermercado.

O lixo de hoje não é mais igual ao lixo do meu tempo. Naquela época, todo o lixo era orgânico. O café da manhã era coado em um saco de pano. O pão era embrulhado em saco de papel. O leite era vendido em garrafas. A carne vinha embrulhada em uma folha de guarumã. Tudo virava um monturo no quintal da casa. Queimava-se o lixo seco e o restante entrava em decomposição.

As galinhas, com seus pintinhos, quando percebiam que no lixo havia se formado as gostosas minhocas e outras guloseimas, corriam para o monturo, ciscavam, cantavam chamando os pintinhos, que, na maior felicidade começavam a saborear os deliciosos petiscos.

Hoje, o lixo é composto de plásticos, embalagens, material sintético, metal pesado e em grande quantidade. Cada morador produz até 1,2 kilos de lixos. As pessoas não dispões de espaços para guardar tanto lixo. As casas e apartamentos não tem mais quintais, e não se criam mais galinhas.

Os aterros e lixões viraram problemas nas regiões metropolitanas pelo mundo a fora. É o que está vivenciando a população de Belém, Ananindeua e  Marituba, com uma montanha de lixo e mais de oito milhões de litros de chorume. No Sri Lanka, pelo menos 15 pessoas, incluindo quatro crianças, morreram quando uma montanha de lixo deslizou, soterrando vários barracos em um bairro da capital Colombo. Um primeiro balanço de vítimas relatava 10 mortos.

Não é possível voltar a roda do tempo. O que já fizemos de estrago no Planeta precisa ser reparado, mas é urgente que mudemos nossos forma de viver, precisamos criar hábitos sustentáveis, para voltarmos a sermos felizes que nem pinto no lixo.

 

zecarlos

Advogado, pós-graduado em Direito Ambiental, especialista em povo, principalmente o povo paraense.

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